viagem ao mundo dos símbolos I

Francisca Carvalho a partir de Eugénia Mendes:

Olho a rua deserta

Tudo parado. 

Abanam folhas vozes

Pássaros 

Ninguém entra. 

No portão semi aberto a sombra do seu movimento – a companhia. 

O sol brilha 

Um bando voa recto em círculos. 

Rua recta em largo círculo – início ou fim.

Tejo desagua no círculo em mar. 

Rua recta Mar em círculo,

Do início ao fim da viagem

Partida. 

Direcção à partida

Direcção partida 

Definida apressada.

Filipa Pestana a partir de Eugénia Mendes:

Árvores, pássaros, carros

Escola com portão semi-aberto

Companhia e guarda ausente 

Círculos Rectas

Início ou fim

Largo círculo 

Rua recta

Ambos se podem ultrapassar 

Viagem definida à partida 

Sandra Chaves Costa a partir de Eugénia Mendes:

Círculo recto

Olho a rua

Olho o guarda

Olho um bando de pássaros em círculos e rectas

Rua recta de largos círculos

Alguém isolado passa apressado

Numa viagem definida à partida

Sofia Campilho a partir de Eugénia Mendes:

Olho, nem tudo abana nas árvores.
O barulho do portão que ninguém guarda.
A sombra ausente. Olho.
Recta, não sei, será que acaba no mar?
Cruzam-se no círculo, ambos.
Segue preso, definida à partida.

Ana Natividade a partir de Eugénia Mendes:

rua recta largo círculo

a rua no círculo

como o Tejo no mar deserto

isolado na viagem.

João Simões a partir de Eugénia Mendes:

olho o deserto desta noite

abanado pelo vento

do outro lado da rua

ao longe 

o portão semiaberto

da cabine que esconde algo na sombra

as linhas metálicas dos eléctricos

reflectem 

em círculos e rectas o sol que brilha 

olho de relance para a rua

não sei se é o início ou o fim  

liberto-me do cruzar do eléctrico 

que segue a outro eléctrico

numa direcção definida à partida.

Zohia Valentina Polanco a partir de Eugénia Mendes:

Árvores, escola.

Círculos e rectas no mar, ambos se podem ultrapassar.

Olho ausente como carris cruzadas.

Viagem, presos à partida.

Susana Ayres a partir de Eugénia Mendes.

Deserto parado
com folhas paradas.
Cantam só os carros,
Pela porta da escola fechada
onde ninguém entra.

Nem a sombra do Sol
ausente.

Acima do sol e das rectas,
A rua em círculo tem fim!
E a rua recta? Desagua no mar
onde se cruzam os círculos
presos

Quando isolado – à partida,
Parado ao longe – à partida,
“nem tudo se encontra nas árvores”
e cruza-se então
o Mar.

Isabel Bento a partir de Eugénia Mendes:

Abanam as folhas das árvores por cima do portão semiaberto da escola fechada

Um bando de pássaros voa em círculos e rectas, como numa rua recta de largos círculos

Autocarros e carros cruzam-se, mas só o eléctrico segue preso nos carris

De quando em quando alguém passa numa direcção definida.

Flávia Germano Barra a partir de Eugénia Mendes:

Parado o sol

olho ausente

definido o circulo dos pássaros como carris também definidos

uma recta e outro pássaro em viagem, isolado e talvez semi-aberto

Cruzadas várias prisões

como numa partida fechada  e um guarda único

como o Tejo eléctrico

e longe

e à partida

e definido numa cabine

isolado

semi-aberto

ultrapassado e à partida

Vicente Saraiva

Francisca Carvalho a partir de Filipa Pestana: 

Exactamente criam-se os irmãos. 

Quando os fios estão limpos 

a corrente eléctrica passa e a vida é curta.  

Os Pintores invocam uma ciência do visível à maneira natural. 

Este silêncio faz-nos passar às coisas não descobertas. 

O elogio do Defunto é elegante.

O orador identifica o elogio essencial da voz anónima

Torna possível a palavra.

Sandra Chaves Costa a partir de Filipa Pestana:

Espécie de irmãos

Todos sabemos que a vida é muito curta,

Sempre o soubemos!

Somos uma espécie de irmãos que não passam pelas palavras.

Não falam por palavras, mas por obras,

Que se comunicam entre elas.

O que se faz passar para a obra provém do olho e dirige-se ao olho!

Num discurso em organização,

Num elogio ao defunto.

Ideias e expressões raras.

Sofia Campilho a partir de Filipa Pestana:

Esse silêncio dá-se às palavras.
A corrente descarnada está presente.
Sempre souberam que não fala por palavras mas de coisas naturais, silenciosas.
A forma provém do olho.
É de facto, género de elogio que é possível, circunstancial do anónimo.
Raras.

Ana Natividade a partir de Filipa Pestana:

o silêncio cria irmãos.

nos fios descarnados

a corrente eléctrica

é muito curta

os pintores não falam por palavras,

à maneira das coisas naturais,

da ciência oculta do olho

o discurso é de facto escuro,

o defunto sucede-se elegante,

o orador identifica o elogio da voz anónima,

expressões raras do feliz autor.

João Simões a partir de Filipa Pestana:

silêncio, meu irmão sem palavras

és como os pintores, sem palavras

a vida é curta neste universo

cheio de formas não descobertas

Susana Ayres a partir de Filipa Pestana:

Cria, irmão mútuo,
passa-me pelos fios.
Passa pela coisa que sabemos curta,
traz-me o pictórico visível.

A tua ciência é silenciosa e eu confio
na tua descoberta.
O discurso genérico é defunto.

De maneira elegante se identifica
o primogénito anónimo
Feliz, e raro.

Eugénia Mendes a partir de Filipa Pestana:

Exactamente

Silêncio de irmãos

Sem palavras

A vida é muito curta

A corrente pode passar

Os pintores evocam

As formas não descobertas

O discurso escuro pede ao defunto

De uma forma elegante

A voz anónima

Impossível de qualquer palavra

Zohia Valentina Polanco a partir de Filipa Pestana:

Esse silêncio, dá-se comunicação, a corrente eléctrica pode passar.

os pintores que não falam por números a todas, a propósito das formas a olho.

é um discurso mais ou menos elegante, circunstancial, de voz anónima. 

O autor. 

acabei.

Isabel Bento a partir de Filipa Pestana:

Há outra forma de comunicação que não passa pelas palavras

Da Vinci com obras que hesitam no visível e com as quais se comunicou

discurso, género, onde é pedida a voz anónima que torna possível toda e qualquer palavra.

Flávia Germano Barra a partir de Filipa Pestana:

Exactamente silêncio

só de fios feito, não sabido nem dito

as obras à maneira do universo cientifico dirigem-se ao olho

em discurso

em elogio

como o elegante defunto – evocação do autor

Francisca Carvalho a partir de Marta Roux:

Janela á noite

o reflexo bate no vidro.

vidra o sol e os jardins. 

sapos que pirilampam.

abelhas

libelinhas

ratos

alimentam-se na escada de serviço. 

Uma nespereira e seu reflexo

à noite.

Luz do dia

Fim do dia.

Filipa Pestana a partir de Marta Roux:

Olhar na janela o meu reflexo

preciso de silêncio

os sapos cantam à noite 

mini morcegos na escada de serviço

sinais do tempo 

um dia vai ter fim

Sandra Chaves Costa a partir de Marta Roux:

Noite abençoada

ao olhar a janela à noite,

vejo o meu reflexo e

um limoeiro que bate no vidro.

vista abençoada!

Os sapos cantam à noite,

os pirilampos visitam-me!

Há um reflexo melhorado à noite que falarei noutro tempo…

Tempo de passar nesta vida que há de ter um fim.

Sofia Campilho a partir de Marta Roux:

À noite vejo o reflexo que bate no vidro, onde os sapos de vez em quando me visitam.
Na nespereira, em pleno centro à luz do dia.

Susana Ayres a partir de Marta Roux:

Noite
olho o reflexo do limoeiro diário,
abençoo o sapo dos céus

e os pirilampos.
Amigos,
a nespereira de serviço
é magnífica! melhor
que qualquer sinal do tempo
a ultrapassar o fim.

Ana Natividade a partir de Marta Roux:

noite a olhar o limoeiro

nos jardins os sapos cantam

o reflexo a passar 

a passar

João Simões a partir de Marta Roux:

noite… janela à noite

noite a descansar nas folhas do limoeiro

abençoada pelo voo dos pirilampos

estou rodeada pela natureza neste jardim 

mágico, no centro da cidade

noite que passa

deixo-a passar

Eugénia Mendes a partir de Marta Roux:

Vejo reflexos nas folhas do limoeiro

 Os sapos cantam à noite

e os pirilampos visitam-me

estou rodeada pela natureza

que me abençoa

nesta roleta que terá um fim

Zohia Valentina Polanco a partir de Marta Roux:

Noite, vejo o meu reflexo que bate no vidro.

Bela vista onde os sapos, pirilampos, me visitam, gatos e até o rato.

Que bênção a minha, melhorada a luz do dia que terá um fim.

Isabel Bento a partir de Marta Roux:

Ao olhar a janela à noite oiço o meu reflexo

sou abençoada pelo sol e pelos amigos pássaros e borboletas

magnifica natureza no centro de Lisboa

Flávia Germano Barra a partir de Marta Roux:

O limoeiro batido na vista

assusta os sapos como sinal da diversidade do céu

Dos céus e das escadas – a graditão – reflexo do ser para a morte. 

Vicente Saraiva

Viagem ao mundo dos símbolos II

Espaço de projeto, aprendizagem e experimentação artística