Viagem ao mundo dos símbolos IV

Francisca Carvalho a partir de Federico Castoldi:

Onze e dez

Janela fechada, 

barulho e sombra

o asfalto. 

Uma barra de metal

participa verde ao longo da língua. 

Grafitti negro 

e um último fio vermelho maior

pendurado. 

Vozes Portuguesas soam 

à esquerda.

A tua aura longínqua, 

uma espiral pungente nessa pedra.

Uma sombra sobre o carro. 

Letras verdes 

uma vez em mármore, novamente 

interceptadas. 

Na porta verde,

o grafitti verde. 

Um vento passa doce,

leve.

Ana Natividade a partir de Federico Castoldi:

odore aura

rumore d’aria

voce di machine intense

machia che cresce

la finestra in lontananza

l’ombra e l’asfalto

rumore d’imondizie

nel angulo, il metallo,

un cartello

l’alarme nero

Teresa Carepo a partir de Federico Castoldi:

Um grafito de cimento e ferro…

Numa aura quase insuportável,

Surge uma escrita verde,

Intensa

Um rumor de uma máquina,

Doce e leve

Sofia Campilho a partir de Federico Castoldi:

Edifício, asfalto, verde alarme ligado. Rumor, que grosso que pende. Portuguesa em qualquer parte, quase sinistra. Na tua aura insuportável. Intenso e contínuo rumor, marca branca. Escrita verde. Gasóleo e benzina.

Isabel Bento a partir de Federico Castoldi:

Da janela

Duas máquinas, uma barra de metal e um alarme ligado

Um graffiti negro de uma voz portuguesa e o rumor de uma máquina

Rosa Baptista a partir de Federico Castoldi:

Devidamente ângulo verde.
Dichi
Castelo, Grafitti…
Portuguesa sinistra, insuportável.
Intenso, continuo a respirar:
5, 7, verde.
Pedra sustem muro,
Um homem estranho, verde, ilustrado de mármore,
Uma porta verde, rumor da Vita, dolche
Odor a gasóleo
TUTU!

Maria José Meneses a partir de Federico Castoldi:

Segunda-feira

11;30

Janela fechada

Sombra no asfalto

Barra de metal

Alarme ligado

Rumores 

Fechados no meio do muro

Voz portuguesa sinistra

Longínqua vizinha

Qualquer parte

Pungente intenso e continuo

7 pedras paletas de ferro

Sustêm o muro

Muros brancos escritos

Verde fio que pende na porta verde

Vento doce e leve

Gasóleo gasoline

João Simões a partir de Federico Castoldi:

l’ombra e l’asfalto

alarme un cartello

mezo el muro

qualquer parte sinistra

la tua aura motorino bianco

grosso grafiti verde que se vá

gasóleo, benzina, claxon, bye bye

Francisca Sampayo a partir de Federico Castoldi:

Rumores

Segunda 11h30

a janela fechada, olho o asfalto

barra de metal

alarme ligado

rumor

grafite negro no muro

Voz portuguesa sopra sinistra

a tua aura longe

rumor de máquina, intenso continuo rumor

muro de pedra

branco, verde, grosso, grafite verde

vento doce e leve

máquina, gasóleo, benzina, clac som, tutu

Eugénia Mendes a partir de Federico Castoldi:

A janela fechada

Duas máquinas sobre uma barra de metal

Alarme ligado

Rumores

Grafitti verde

Um vento doce e leve

Um som de máquina

Grafitti negro

Uma voz portuguesa à esquerda

O muro

Zohia Valentina Polanco a partir de Federico Castoldi:

La finestra.

Una barra de metallo, un cartello dice allarme legato, rumore d’immondizie. 

Un cartello, un grafito nero, un altro sinistra, una alta voce.

Rumore intenso, continuo rumore.

Bianca, rettangolare, verde, pietra de ferro.

Cimento, un cartello verde, lustrato cimento.

Tanti alti il filo che pende di la porta.

Il rumore della macchina dolce.

Flávia Germano Barra a partir de Federico Castoldi:

Rumores do edifício e do alcatrão – alarmes ligados e ainda rumores mais grossos e dependurados. Encerrado, o lado esquerdo da aura é uma máquina de outro rumores sem palavras, nem verde, nem pedra, nem ferro. Só gasóleo e benzina.

Vicente Saraiva

Francisca Carvalho a partir de Flávia Germano Barra:

Quintais oblíquos

O vento sombra da planta

Uma raíz franja

O sol e a pedra aquecem na varanda e a salvo.

Pés sem mercúrio

O meu fumo

Uma mulher ao sol 

e a invenção do cordão. 

Árvore em pêlo arrancada ao rizoma. 

Nuvens e maçãs na tua cabeça. 

Pestanas em anzóis

o tridente no chão.

Um galo

Uma seta

Um cubo de guardar a sede. 

Comer laranja, escrever, adivinhar

Tinta como crosta.

Todos os nós agarram três braços.

Ana Natividade a partir de Flávia Germano Barra:

a fuga de um cão ao sol

com uma maçã e três nuvens

nos olhos daninhos

Teresa Carepo a partir de Flávia Germano Barra:

Chamamento

no reservatório de água surge um peixe,

Uma concha útero

definição de um ventre com 3 braços e 1 embrião

dependurada pela raiz,

de pés suspensos no cordão

mergulho na sombra e na luz

Sofia Campilho a partir de Flávia Germano Barra:

Corte de unhas de raposa,

jacintos com pestanas e

um cubo com quatro pés e 

presságio de um galo que

não se vê, mas sabe.

Guardar pássaros, pingo como crosta.

O círculo é o varandim, olhos como caminhantes oblíquos.

Isabel Bento a partir de Flávia Germano Barra:

O vento agita a sombra salva do pé de pisar

Uma mulher ao sol  à sombra do seu ventre

Uma maçã mergulha desmaiada

Laranjas e camélias, ervas daninhas e urtigas

Secas, pasmadas e obliquas

Rosa Baptista a partir de Flávia Germano Barra:

Arroto ensolarado engravatado
Três virilhas a vazar aos mergulhos no areal
Cubo naquela seta que sabe:
Comer pássaros, adivinhar.
Escorre os brancos do útero lá dentro,
Umbigos de verde molhado,
Secos e oblíquos.

Federico Castoldi a partir de Flávia Germano Barra:

Una mulher ao sol 

O corpo de uma manzana, 

Um tridente no corpo. 

Ruge com o tempo. 

Olhas! Embriões oblíquos. 

Maria José Meneses a partir de Flávia Germano Barra:

Vento sombra luz

Planta raíz dependurada

Prece à sombra da varanda elevada

Pés descalços sem mercúrio 

Aroma do caldo

Última definição do ventre no areal

O rizoma ensolarado

Três pauzinhos jacintos em tridente

Quatro pés presságios do vento

Cubo dos quintais a guardar pássaros 

Pingo de ferro no tempo da ferrugem

A boca e a erva folhas umbigos

Pincéis pousados e oblíquos

João Simões a partir de Flávia Germano Barra:

Raíz franja, uma prece

pedra deitada na loja

pés descalços, música fuga

de uma mulher ao sol

uma árvore, rizoma engravatado

gesto três pauzinhos soprado ao chão

água que sabe a laranja e camélias

um pingo de círculo em duas trompas

cresce em umbigos os pincéis pasmados

Francisca Sampayo a partir de Flávia Germano Barra:

Presságio de vento

O vento agita a sombra

planta pendurada pela raiz na varanda

Pés descalços, sem mercúrio

A fuga de um cão

Aroma de um caldo de mulher

Corte de unhas de raposa

Jacintos e mergulhos de peixes

Presságios de vento que não se vê

cresce daninha aquela erva nos quintais… urtigas

pincéis secos, oblíquos

Eugénia Mendes a partir de Flávia Germano Barra:

O vento agita a sombra

Dependurado numa prece

A pedra deitada na varanda 

Os pássaros, a música por dentro de tudo

Uma mulher ao sol

Um ventre 

Uma maçã

Nuvens em forma de raposa

Mergulhos de peixes

Quatro pés como pilares

É útero o varandim

Com minha boca lá dentro

Valentina Arvela a partir de Flávia Germano Barra:

O vento agita a última definição, um terço.

A pedra deitada, a salva do chão descalço.

O chamamento, o meu fumo, a minha fome.

Volta a sombra como um pelo, um corte de unhas.

Três pauzinhos, mergulhos de peixe, um cubo, presságios do vento que não se vê.

Lençóis, desenho, tinta como tempo, como útero, como embriões secos, pasmados e oblíquos.

Vicente Saraiva

Francisca Carvalho a partir de Maria José Meneses:

Estacionamento 

Passam dois homens à esquina das janelas comportadas. 

Mulheres com máscaras passam devagar. Estacionam novamente. 

A rapariga de plástico no saco azul do homem. 

A rapariga do saco voltou, confiante que vai morrer. 

Ana Natividade a partir de Maria José Meneses:

manhã do primeiro dia

azulão preto vidrão verde mota

tap tap tap 

mulheres passam devagar

entre carros 

entre luzes brancas de presença

zum zum zum

um carro outro carro outro carro

um saco outro saco a rapariga do saco

a maior parte vai morrer

Sofia Campilho a partir de Maria José Meneses:

Azulão todo preto que faz esquina. Ponto da situação ainda existe. Mulheres normalmente devagar.

Luzes acesas dentro da luz de presença. Passeio do meio faz lugares vagos.

Saco branco cheio que cresce dia a dia. Preto.

A rapariga do saco.

Voz calma a maior parte.

Isabel Bento a partir de Maria José Meneses:

O avião levantou vôo e os carros passam sobre as luzes da rua acesas

Não passa ninguém

Árvores no passeio, as folhas das árvores crescem dia a dia

A maior parte vai morrer

Rosa Baptista a partir de Maria José Meneses:

Vejo homens de azulão na esquina,
As portadas abertas,
A ministra levanta voo, TAP, TRATE, máscaras (devagar)
As luzes acesas, as cadeiras empilhadas junto à caixa.
Vagos…
Ninguém!
Rapariga de branco vestiu o saco ao telefone,
Com calma e confiança, parte para viver.

Federico Castoldi a partir de Maria José Meneses:

Não passa ninguém.

A janela está aberta.

João Simões a partir de Maria José Meneses:

café 2 homens, terceiro carro

luzes acesas dentro do café

árvores no vidrão, ninguém, uma

rapariga cresce dia-a-dia

vem aí ao telefone a morrer

Eugénia Mendes a partir de Maria José Meneses:

Dois homens na esquina

Ainda existe a TAP

Mulheres com máscara

Devagar

Luz de presença nas janelas abertas

Não passa ninguém

No café fechado

Notícias com voz

Calma

Zohia Valentina Polanco a partir de Maria José Meneses:

Dois homens à esquina, luzes dentro do café, passeio branco.

A rapariga de plástico no saco.

Uma rapariga vai morrer.

Flávia Germano Barra a partir de Maria José Meneses:

O café vestido de preto – aberto o carro – voado o avião – Máscaras conversam com as luzes brancas e apagam as cadeiras sentadas. ZUUUUM – O azul encobre a pessoa dentro de um saco.

João Simões a partir de Maria José Meneses:

café 2 homens, terceiro carro

luzes acesas dentro do café

e do carro que desbobina

notícias obscenas

sobre uma epidemia

árvores no vidrão ninguém as vê?

uma

rapariga cresce dia-a-dia

vem aí ao telefone

para morrer

Vicente Saraiva

Francisca Carvalho a partir de João Simões:

Canto 

O apartamento tem luz em todas as janelas. 

Pessoas que imergem dos mundos,

E o repouso de três delas. 

A varanda do primeiro andar

E o vizinho das manhãs. 

O sossego e Agostinho a dizer-nos que paremos por um ano. 

Deus fecha a porta.

A janela da paz que dá para a rua de seiva abre-se

no meu sistema nervoso. 

Ana Natividade a partir de João Simões:

com olhos no canto

três pessoas procuram duas orelhas de lã

os braços conversam

e a janela em frente está ali desde manhã 

Teresa Carepo a partir de João Simões:

A rua….

A rua descansa silenciosa

Luz em todas as janelas

Olhos de pessoas imersas nos seus mundos de escuridão

Silencio da rua vazia

para se encontrar a si própria

Sofia Campilho a partir de João Simões:

Mesmo em frente tem luz.

Do canto não existem os seus mundos.

Repouso de três pessoas.

Tricotadas pelo silêncio de quem procuravam.

Entrelaçado de frente, descansa, estacionado.

Encontrarem a si mais longe, cheio de paz.

Isabel Bento a partir de João Simões:

Há luz em todas as janelas

Parece um filme em que as janelas são olhos

Três pessoas na rua conversam descontraídas debaixo de ramos entrelaçados

A luz silenciosa dos candeeiros

O mundo inteiro para cheio de paz

Gosto, terra céu, céu terra

Rosa Baptista a partir de João Simões:

Andar na luz do filme
Olham no olho das pessoas imersas
Mundo da escuridão faz bem.
Procurar alguém, bolas vazias
Procuravam o primeiro
Há Beleza na janela
Desde manhã, parece alaranjada, lado a lado

Nenhum português.
A si não são só,

Mundo abre:

Paz, a rua, sistema, terra…

Federico Castoldi a partir de João Simões:

Cada vez é um teletrabalho.

Ninguém

Durante um ano.

Maria José Meneses a partir de João Simões:

Como num filme as pessoas olham pelo canto do olho

São olhos as pessoas

Quando daqui saio, escuridão e silêncio 

Três pessoas procuram alguém é uma rapariga com gorro de lã

Na janela frente ao computador o teletrabalho à luz doa candeeiros

Ninguém. Gosto deste sossego

Agostinho da Silva 

A realidade vai sempre mais longe

Quando Deus fecha uma porta abre uma janela

Terra e céu

Francisca Sampayo a partir de João Simões:

Silêncio

Apartamento, janelas do quarto andar

com luz, parece um filme

do canto do olho, olho para a rua

escuridão, silêncio, em repouso

Três pessoas na rua

rapariga com gorro em bolas de tricot

silêncio, rua vazia

o entrelaçar de ramos nas árvores

o vizinho da janela da frente teletrabalha

Candeeiros cor-de-laranja, a rua descansa

Agostinho da Silva manda parar os carros

Deus, Paz, rua, árvores, terra, céu, céu terra.

Eugénia Mendes a partir de João Simões:

Luz em todas as janelas

São os olhos das pessoas

O meu é o da escuridão e do silêncio

Casal no silêncio da rua

Beleza nos braços do vizinho em teletrabalho

Mota e bicicleta sem ninguém

Agostinho manda parar

E encontrar-se a si próprio

Céu

Terra

Paz

Zohia Valentina Polanco a partir de João Simões:

Em frente, no quarto andar, em todas as janelas, como no canto do olho das pessoas.

Mundo da escuridão e o silêncio.

Gorducho em forma de bola tricotada.

Conversam descontraídas ramas no computador.

A luz estacionada, nenhum sossego.

Parassem a si próprios o mundo inteiro.

Fecha a porta cheia de paz no meu sistema nervoso.

Céu, Terra.

Flávia Germano Barra a partir de João Simões

A quarta janela é indiscreta como o canto de um olho. Em silêncio escuro, três vezes engordada a bola sem jogo e só conversa. Talvez sossego, talvez realidade, talvez Agostinho, numa só rua, pouco nervosa a Terra.

Espaço de projeto, aprendizagem e experimentação artística