Viagem ao mundo dos símbolos II

Francisca Carvalho a partir de Sofia Campilho:

Dois pássaros saem exagerados

da árvore ruína oculta.

Dançam e ondulam no tronco velho. 

Querem lagoas e espelham a água eleita. 

Um pássaro preto à frente dos outros. 

Dia luminoso.

Árvore de pés e cabeça tombados em diagonal, 

encostados à Eleita.

O centro do pleno era claro e não o vejo. 

Paisagem indiferente ao herbário da peste. 

Espero uma sombra em arco no chão. 

Pássaros entram e 

Uma brisa entra. 

Susana Ayres a partir de Sofia Campilho:

Todos preferem aquela árvore,
a ruína dessa árvore.
Uma chinfrineira luminosa que se amarra à cabeça

mesmo antes que possam tombar para o lado.

Eleito: no enquadramento, eu não vejo o muro
mas folhas a chilrear indiferentemente.
Espero pelos pássaros em arco
e então, o tiro, atinge o chão.

Filipa Pestana a partir de Sofia Campilho:

O barulho de todos os pássaros juntos é imenso

até no tronco velho eles andavam 

parece um espelho das sombras que desapareceram. 

Chinfrineira imensa

praticamente não chego a ver a sombra da eleita 

para trás da ruína

chilrear dos pássaros. 

Espero 

hoje não é um bom dia 

entra uma brisa pela janela

Sandra Chaves Costa a partir de Sofia Campilho:

Indiferente à peste

dois são pequenos

outro é ruína imensa

um exagero de ruína oculta

tronco velho, ruína onde anda

quem quer a árvore eleita.

Pássaro diferente dos outros

numa chinfrineira imensa

acompanhado das sombras

totalmente à esquerda do enquadramento

eu, claro, ao contrário da zona de sombra.

Sol, sombra, ramos

paisagem indiferente à peste.

Espero!

Parece que os pássaros percebem

o tiro que entra como uma brisa pela janela.

Ana Natividade a partir de Sofia Campilho:

herbário da peste

dois pequenos pássaros na ruína oculta

os pássaros querem os pássaros

um pássaro preto na terra

árvores vazias

árvores luminosas com pés e cabeça

ouço-os no centro da sombra tombada para a esquerda

passa uma sombra de pássaro

uma carrinha

uma sombra em arco

um tiro

uma brisa pela janela

João Simões a partir de Sofia Campilho:

pequenos pássaros 

na ruína vazia, ocultada

por grandes troncos de árvores sombrias

os pássaros chilreiam à volta da minha cabeça

na minha cabeça

a voz da sombra

espero por ela

espero pela sombra em arco no chão.

Eugénia Mendes a partir de Sofia Campilho:

Dois pássaros na ruína oculta

Dançam

Exageram

Dançam mais pássaros

As árvores vazias

Querem a sombra que desapareceu

Têm os pés amarrados

A ruína parou no chão

Não a vejo

A paisagem diferida peste

Um som de homem ao longe

Parece um tiro

E uma brisa entra pela janela

Zohia Valentina Polanco a partir de Sofia Campilho:

Pequenos pássaros, o barulho é intenso, vê-se uma ruína, agora as outras estão vazias da água na terra.

A vida dos pés, acompanhadas, tombadas à esquerda de um enquadramento para o centro do plano.

E não vejo folhas a abanar de peste, espero, ouço, espero, mais uma, ouço os meus olhos pela janela.

Flávia Germano Barra a partir de Sofia Campilho:

Pássaros em ruína – um exagero oculto e dançado – querem ser árvore e uma sombra preta à frente do chão.

A luz aos pés amarrada não se vê, porque se encosta à eleita

indiferente ao homem, e eu espero, um tiro pela janela. e eu espero.

Isabel Bento a partir de Sofia Campilho:

Dois pequenos pássaros aparecem e um outro sai da ruína oculta

Lagoas de água que parecem espelhos

Os pássaros só os oiço

Chilrear de muitos pássaros

Passam as sombras dos pássaros no chão, não os vejo

Entra uma brisa pela janela.

Francisca Carvalho a partir de Frederico Pratas:

Um homem de capuz e árvores à direita viradas a dormir. Eis que surge ante mim, sentado fetal, um som minguante. 

Silêncio e o eco. Sente-se no espaço o ruído dos estores. O som extingue-se por fim. 

Rapariga de rabo de cavalo e ténis verdes da manhã. Palco de céu azul. É o entra e sai do bater de portas.

Clara, a loira de meia idade é cor de rosa. De costas, vem-lhe o espírito circundado em luz branca intermitente. 

Discussão ao vento e loiças partidas. Fixas foram as tabuletas. Há o descampado adjacente e luzes nervosas nele. 

Sinais de ocultos fugazes no interior das árvores escuras e as indecifráveis músicas ao longe. 

Parcialmente pensativo, o homem suspende o movimento. 

O animal alça a perna às folhas secas. O sol está quente.

Excesso de luz escondida e parada. 

Filipa Pestana a partir de Frederico Pratas:

É muito agradável, sente-se espaço

estores são puxado para cima. 

Silêncio de novo

Sabe bem respirar de manhã 

céu como um teatro

as portas batem

um palavrão ressoa

luzes estremas brilham.

Estores abrem-se 

pano de fundo de silêncio. 

O sol está quente 

Sandra Chaves Costa a partir de Frederico Pratas:

Irreal

Estou de capuz sentado,

Enquanto escrevo apoiado no braço direito.

O comboio ladeia a linha, oiço-o cada vez mais.

E há aves que não são pombos.

Um avião extinguiu-se por fim,

Os barulhos realçam o silêncio e sente-se o espaço.

Um rapariga faz jogging montada num cavalo cor de rosa.

Sabe bem!

O céu tem uma cortina de chumbo,

E a calçada portuguesa recolheu-se como todos nós.

Ao fundo, uma luz branca pisca.

Fugazmente, desaparece no espaço.

Alguém entra e as portas batem.

Palavrão, discussão, emoji com expressão de espanto!

Luzes trémulas e nervosas, talvez influenciadas pelo irreal!

Sinais inequívocos de vidas no interior das casas.

Uma sombra anda em círculos pensativos,

Como se uma interrogação fosse.

Segue o seu caminho!

E as nuvens escondem-se em outras paragens.

Sofia Campliho a partir de Frederico Pratas:

Sentado ao longo do mesmo comboio.
Semi encoberto desaparece, não os oiço.
Realçam o silêncio do cão que ladra.
Puxados para cima, uma rapariga e o seu cavalo, cheiram a manhã.
Teatro de céu azul.
Batem na calçada branca, como todos nós, ao fundo.
Pisca desmaiado, mas desaparece no espaço agudo que sopra.
Descampado que vibra e que se abre a sinais fugazes que se conseguem distinguir rapidamente sobre o silêncio suspenso.
Folhas secas com excesso de luz.

Susana Ayres a partir de Frederico Pratas:

Capuz

O feto sentado a escrever
apoia-se, e adormece.
Cada vez mais os minguantes pardais
se chegam.
Ouve-se pela cidade
contra o silêncio
um som baixo, um som verde
no branco intermitente
dos espaços.
O palavrão agudo sopra,
perdido e fixo em tabuletas nervosas
As luzes abrem-se no igualmente
branco Longe,
e sabemos o que vai acontecer.
Em frente, está o indecifrável,
o pensativo, suspenso na idade meia:
azul e curta.
Alçando a perna, desaparece

por entre os excessos
das nuvens.

Flávia Germano Barra a partir de Frederico Pratas:

Deitado no braço e entre os comboios um homem encoberto é desaparecido já.

Os barulhos da cidade dão o espaço e a subida dos estores são um vestido de alface fresca e chumbo no palco. Planas portas batem na rua vestida de capuz, a pensar o espírito, num parque de estacionamento desmaiada a motoneta da esquina. Palavrões de cor cinzenta ao telefone e loiças com inscrições pretas. O comboio ainda, nervoso dá sinais ocultos do interior a pedalar para fora e de boné. Pensativo, interroga a parede de blusão azul-alçado e folhas secas. Nuvens paradas.

Ana Natividade a partir de Frederico Pratas:

um homem de capuz

deita-se para dormir

o comboio aproxima-se

as catenárias a linha o som minguante

um cão muito agradável ladra

à minha direita 

estores rapariga avião

chove, chumbo, céu azul,

pequenos pássaros,

alguém entra ou sai,

o asfalto branco,

o prédio rosa,

uma luz branca faísca desmaiada

o som desaparece no espaço

nas catenárias

nas tabuletas brancas

há vidas ocultas nos estores

vozes no silêncio descampado

um homem parcial na esquina rosa

João Simões a partir de Frederico Pratas:

um homem entra as árvores 

em posição fetal dormia

pequenos seres realçam a rua

um cão

uma rapariga fazendo jogging veste leguins de teatro

do outro lado uma luz pisca

tom agudo de telefone e louças

estores desenham vidas ocultas e azuis

há um pano de fundo nas sombras do seu quintal

esquina rosa azul intenso

Eugénia Mendes a partir de Frederico Pratas:

Entre árvores

Um homem sentado

Em posição fetal

Dorme

O comboio aproxima-se

O muro ladeia a linha

Pássaros nas árvores

Não as vejo

Não as ouço

Alguém entra

As portas batem

Uma voz jovem

Luzes brilham nos telhados

Sinais de vidas interiores

Sombras seguem o seu caminho

Faz bem cheirar a manhã

Zohia Valentina Polanco a partir de Frederico Pratas:

Homem de capuz.

Enquanto escrevo em posição fetal o comboio surge semi encoberto pela linha.

Não as ouço, é muito agradável. Os sons algures, ruídos puxados para cima, silêncio de novo.

Ténis verdes com rabo de cavalo.

O céu revelando um palco em baixo, termina à direita do prédio rosa intermitente.

Um palavrão agudo ao telefone, ouço no espaço.

Passa fugaz, rapidamente, voz com música. 

Ao longe, detrás de um muro cansativo, tal vez de preto, o animal de folhas secas. 

O sol alto, as nuvens escondem-se.

Isabel Bento a partir de Frederico Pratas:

Um homem de capuz deita-se no banco e o comboio aproximasse e num instante desaparece

Tal como o som, o silêncio de fundo da cidade extingue-se por fim

Chove, oiço os pequenos pássaros e as portas dos carros baterem

Uma loira refugiasse num prédio cor de rosa

Ao longe a figura de um homem contempla a parede como se interrogação vazia fosse

As nuvens escondem-se em outras paragens, excesso de luz

Viagem ao mundo dos símbolos III

Espaço de projeto, aprendizagem e experimentação artística