viagem ao mundo dos símbolos

CENTOPEIA  

O que se apresenta aqui é uma cadeia de textos escritos por todos os participantes das sessões – Viagem ao mundo dos Símbolos.

No início do confinamento em Março 2020, lancei um exercício de escrita e observação que é, na verdade, uma proposta baseada em duas ideias: os presságios e kaizen.

Em presságios recupera-se a tradição milenar e transcontinental da leitura de sinais como indicativos de orientação no presente. Muitas vezes eram os animais, entre eles os pássaros – as suas cores, as direcções dos seus voos – os principais presságios, veiculadores da interpretação possível do momento presente, sempre confuso. A leitura dos presságios faz-se sempre em contexto, isto é, exige uma atenção à simultaneidade de acontecimentos confluentes. Assim, não só interessava aos Antigos o movimento e forma do pássaro, mas também a confluência dele com a fase da lua e o dia solar, bem como a sua posição relativa ao corpo de quem o observa. Assim, esquerda e direita, alto e baixo, rápido e lento constituem indicações de orientação para a leitura do acontecimento-pássaro.

Em confinamento, a janela tornou-se bola de cristal, abertura de atenção aos acontecimentos para lá dela. Todos esses acontecimentos seriam registados por escrito, por cada um de nós, durante cinco minutos de atenção ao exterior. A ideia dos cinco minutos diários e nocturnos – dez minutos por dia – vêm de um ensinamento Kaizen – o princípio útil de que para conseguirmos empreender uma tarefa longa ou improvável, é eficaz dedicarmo-nos a ela um ou muito poucos minutos por dia, mas todos os dias, atravessando assim o deserto pela força da repetição e do hábito.

A proposta:

1. Escolher uma janela em vossa casa.
2. Estipular 5 minutos de manhã e 5 minutos à noite (manter esse horário todos os dias até Terça).
3. Caderno e caneta para escrever/anotar.
4. Anotem, escrevendo, tudo o que vêem e ouvem durante esses 5 minutos. (O texto pode ter o aspecto de uma lista ou telegrama, para quem preferir).
Na próxima aula, cada um de vocês vai ler os textos que escreveu, enquanto todos nós anotamos no nosso caderno os padrões que detectamos nos textos de quem está a ler.

A ideia para este exercício vem de um tema que me interessa muito e me parece pertinente durante este período de reclusão, durante o qual temos a oportunidade de ficarmos centrados em nós e, assim, afinar o nosso aparelho perceptivo, sintonizando-nos com o que se passa ao nosso redor.

Esse tema é o dos Presságios, cuja prática remonta às antigas civilizações (Médio Oriente, Antiga Grécia, Antiga Roma…) e assenta na ideia (hermenêutica) de correspondência entre o macrocosmos e o microcosmos.

“As above, so below”.


Durante um mês estas sessões foram dedicadas à leitura, escuta e transcrição. Cada participante lia, à vez, três textos recolhidos dos seus cinco minutos à janela, todos os nós ouvíamos e registávamos, ao ritmo das nossas mãos, excertos do texto lido. Formou-se assim uma dinâmica de “telefone estragado” ou, trazendo à conversa o Herberto Helder, uma “máquina de emaranhar paisagens”. O que importava era o exercício de escuta activa que, ao transcrever, treslê e transforma. Segue-se aqui o fio destas paisagens emaranhadas. O textos originais ficam ainda em segredo nos cadernos de todos nós, o que se segue são os textos ouvidos e anotados. As imagens que acompanham este fio de textos são desenhos do Vicente feitos durante uma das sessões de leitura e escrita. Enquanto nós escrevíamos ao ritmo das palavras de quem nos lia, o Vicente escolheu desenhar, sempre a mesma personagem na qual, à medida que ia sendo lido um novo texto, o Vicente acrescentava um braço e uma perna. Cada personagem acabou por ter múltiplos apêndices – formas figuradas no papel de quem conta um conto acrescenta um ponto – formou-se assim entre nós uma centopeia. Fomos intérpretes uns dos outros. Fomos transformadores uns dos outros ao transmitirmos transferindo-nos.

Francisca Carvalho

Viagem ao mundo dos símbolos I

Espaço de projeto, aprendizagem e experimentação artística